sábado, 2 de fevereiro de 2019

Conhecendo o Inspiração

INSTITUTO INSPIRAÇÃO EM CAÇADOR 2016 - 2019


Inspiração nasce em  Caçador em agosto de 2016 à partir da problemática da violência sexual contra crianças e adolescentes. No decorrente ano fora realizado inúmeros encontros com a significativa proposta de entendermos como funciona a Rede de Proteção no município, desse modo, a inquietação com o sofrimento de nossas crianças nos provocou a criação do Projeto Inspiração, no qual, estivemos com pessoas comprometidas que construíram conosco as primeiras ações. E o fundamento de toda e qualquer atividade, consistia, na prevenção. Ora, o empoderamento das famílias, da escola, das crianças e adolescentes se tornaram a regra de vida do Projeto Inspiração. Certamente em 2016 nos ocupamos em estudar a realidade de Caçador e nos organizarmos para o próximo ano.

Em 2017 o Projeto Inspiração trilhou uma importante trajetória para a afirmação do trabalho preventivo na cidade. Iniciamos em três escolas da Rede Municipal e uma escola da Rede Estadual o trabalho voluntário de prevenção a violência sexual por meio das rodas de conversa com os estudantes e palestras com as famílias. Nosso limite era o tempo para a realização das atividades, como professores aproveitávamos a hora\atividade para atuarmos nas escolas que tínhamos aulas. Com o tempo, percebemos que os adolescentes apresentavam inúmeras angústias que transcendiam a temática da violência sexual, por fim, o Inspiração já com uma equipe de professores reorganizou a proposta, a abordagem, introduzimos o RAP, estudamos e aprofundamos nas habilidades psicossocioemocionais, nos estudos filosóficos existenciais e no entendimento do papel institucional do poder público.  E no segundo semestre iniciamos os estudos para transição do Projeto Inspiração para o INSTITUTO LATINOAMERICANO DE PROTEÇÃO AOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE - INSPIRAÇÃO, então, em 21 de Outubro de 2017 reafirmamos como entidade social o compromisso instituído no ano anterior. A partir daí o Instituto Inspiração expande seu campo de trabalho.

Iniciamos 2018 com novas parcerias em inúmeras escolas municipais e estaduais de Caçador e região. Dentre os principais pontos de desenvolvimento do Instituto: afirmamos a metodologia de trabalho, construímos com novos apoiadores a Semana Estadual e Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, estivemos em 3 cidades da região com palestras,e panfletagem frisando a PREVENÇÃO e a DENÚNCIA nas escolas e CRAS. Em relação aos estudantes que participaram das rodas de conversa, palestras e oficinas chegamos a 4324 estudantes entre adolescentes e jovens, alcançamos também um número expressivo de 1198 famílias por meio de dezenas de temas referentes ao papel da família na prevenção às violências. Por fim, o Instituto Inspiração tem a prática de não cobrar pelos programas, ações e palestras no âmbito do poder municipal e estadual, temos ciência que esta postura nos possibilita o maior desenvolvimento e crescimento da nossa missão. 

E em 2019 assinamos uma importante parceria com o CENTRO INTEGRAÇÃO EMPRESA ESCOLA - CIEE - esta que iniciou em janeiro deste ano. Com esse quadro, firmamos as tratativas para o aumento da equipe de trabalho e organização do novo cronograma. Enfim, nosso maior orgulho é termos pessoas, empresas e entidades que apoiam o Instituto abrindo novas oportunidades para que possamos melhorar a vida de nossas crianças entendendo a necessidade da PREVENÇÃO e DENÚNCIA. 













CONTATE-NOS:
inspiracaoprojeto@outlook.com
(12) 99231 3223
(49) 99904 3435


domingo, 16 de setembro de 2018


AQUELA INSPIRAÇÃO DIÁRIA


Retomando as atividades no BLOG, então bora retomar à luz da minha inspiração, meu grande PAI. 





terça-feira, 29 de março de 2016

O Princípio Esperança, por Ernst Bloch

Ainda não é noite o dia todo, ainda há uma manhã para cada noite.


O processo do mundo ainda não está decidido em nenhum lugar, nem tão-pouco está frustrado; e os homens podem ser na terra os guardiões do seu rumo ainda não decidido, quer para a salvação, quer para a perdição. O mundo permanece, na sua totalidade, como um fabril laboratorium possibilis salutis.
(Ernst Bloch)



“Que as coisas continuem como antes, eis a catástrofe!” Essa frase é de Walter Benjamin, esquecida em um dos labirintos do monumental Paris, capital do século XIX. Talvez seja uma das imagens mais precisas do que venha a ser o espírito do princípio esperança que o filósofo Ernst Bloch nos anuncia. Vivemos entre essa catástrofe apontada por Benjamin, com sua força destruidora que nos joga subitamente de volta aos ritmos já conhecidos da música do mundo triste, sempre tão igual, e a esperança de uma outra manhã que surpreenda como algo novo. Bloch é um dos grandes filósofos da utopia e construiu em seus 92 anos de vida uma surpreendente reflexão acerca da esperança, mostrando o quanto esse sentimento-conceito foi negligenciado.

Ao apresentar uma breve e densa história da filosofia, da história e da política, Bloch mostra como a destreza dos espíritos, pela maquinaria do funcionamento social, trancafiou os sonhos em redomas coloridas e esvaziou de tal forma o espírito das utopias, chegando, hoje, a usar tal termo para desqualificar uma ação. Com o livro O Princípio Esperança, primeiro de uma série de três volumes, Bloch aposta na esperança e reafirma a força dos resistentes. O livro foi escrito entre 1938 e 1947 enquanto a humanidade vivia tempos de grande destruição (Segunda Guerra Mundial), e alguns sonhos foram queimados de forma cruel em campos de extermínio (tanto os campos prisionais nazistas como os campos “laboratoriais” estadunidenses). Bloch faz do texto uma forma de protesto contra a cultura do mal que se desenhava em seu país (Alemanha). O livro começa com cinco perguntas – secas, diretas e essenciais: “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? O que esperamos? O que nos espera?”.

Bloch foi muito cauteloso para penetrar a escuridão e poder sair, como ele mesmo diz, da paralisia de nosso miserável conhecimento. Ele insiste, em vários momentos do livro, em afirmar que há uma proximidade que turva o olhar, da mesma forma como ao pé do farol não há luz. Sem um horizonte que nos acorde de nossa letargia acomodada não podemos ver mais nada. Sem a provocação do amanhã não poderemos sair do castelo das fatalidades descrito por Leibniz. Mas o fundamental é que se trata de um horizonte que nos joga no aqui e no agora. Esse é, aliás, o princípio motor das utopias desde Tomas Morus e sua ilha de sonhos. As utopias sempre foram literaturas críticas que almejavam pensar o agora e transformá-lo. Bloch não se conforma a tal realidade, que nos sugere que o “sonho” precisa ser sonhado para nos manter funcionando como máquinas que esqueceram seu princípio de funcionamento. Há sonhos que paralisam!

Critica, assim, o sonho contemplativo, disfarçado com as roupagens do grande saber e que joga o sujeito contemporâneo em uma eterna prorrogação do viver. É surpreendente que tenhamos esperado quase 50 anos para ter a tradução dessa obra no Brasil. Como um livro que aborda o futuro demora tanto para chegar num país que, nas palavras de Stefan Zweig, é o país do futuro? Essa obra surge como a luz de uma estrela distante, mas ainda em alcançável. Certamente serão poucos seus leitores, pois ninguém, infelizmente, tem mais tempo e fôlego para um livro de mais de 400 páginas (os três volumes somam mais de mil páginas).

Aqueles, no entanto, que se aventurarem nessa experiência fantástica, encontrarão imagens surpreendentes que Bloch extrai de inúmeros campos do conhecimento e, sobretudo, na literatura. Imagens que nos convocam à ação e tentam substituir o bafo do porão pelo ar da manhã, como diz Bloch. Assim, podemos recuperar as imagens do sonho que move a vida e que nos faz acreditar ainda em um Outro Mundo Possível.

Vivemos contaminados pelo ontem, pelo senso comum que anestesia as potências criativas que todos, em algum canto da alma, possuem. A utopia está tanto nos grandes movimentos sociais que a história já conheceu como nas pequenas ações que podem revolucionar o dia de qualquer um de nós. Superar o velho hábito confortável que nos conduz à mesma trilha no meio do deserto, dizer o que ainda não se disse, imaginar o que ainda não existe é o que alimenta a esperança. Bloch não negligencia esses detalhes em sua obra, mesmo que construa como pano de fundo de sua reflexão uma densa análise das amarras que o capitalismo teceu e, como contraponto, um outro pensamento inspirado, sobretudo, em Marx, que apostava em uma humanidade socialmente possível.

Recorre também à arte, indicando a criação como a revolta necessária que nos conduz ao amanhã. Percorre inúmeras obras na literatura, na música, no teatro, na dança, no cinema, nas artes. Reconhece que é no ato de criação que a vida é possível, e assim podemos nos poupar um pouco da morte, já que viver cada dia as mesmas coisas vai nos matando aos poucos.

São poucos os livros de Bloch disponíveis nas livrarias brasileiras, e a maior parte de sua obra ainda continua inédita em português. Bloch quer pensar como se dão as realidades, as categorias do possível, o verniz das ideologias, o desperdício das forças vitais capturadas no fatalismo interesseiro que diz: não há saída! “Quando não se consegue achar uma saída para a decadência, o medo se antepõe e se contrapõe à esperança”, diz Bloch. Medo e esperança são palavras presentes em nossa história política recente. Diante o panorama de catástrofe que o país vem vivendo, entre a violência da esquina e a indecência nos bastidores da política, a reação possível é arriscar no juízo de Bloch de que pensar é ultrapassar. Pensamos com imagens. Assim precisamos de novas imagens que redesenhem nossas vidas com o cuidado de não aquecer a mesma sopa na panela nova. É catastrófico o relato de Thomas Bernhard de que, retornando à escola depois da guerra, percebeu, substituindo a fotografia de Hitler, um crucifixo. O prego, contudo, era o mesmo. Mudar o prego significa sonhar para frente, já que o princípio esperança de Bloch aposta no que ainda não-veio-a-ser. Precisamos ultrapassar as fronteiras da esperança!


Fonte: http://fronteirasdaesperanca.blogspot.com.br



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

CULTURA E GASTRONOMIA ANGOLANA - SENAC CAMPOS DO JORDÃO

HOMENAGEM PELOS 

40 ANOS DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA

CELEBRAR A CULTURA AFRICANA EM NOSSO PAÍS NOS REMETE DE UMA MANEIRA MUITO PARTICULAR AS NOSSAS ORIGENS, ONDE CELEBRAR É ATUALIZAR QUEM SOMOS E PARA ONDE IREMOS COMO PESSOA E SOCIEDADE. 


























REALIZAÇÃO: 4° PERÍODO DE GASTRONOMIA - SENAC CAMPOS

APOIO: PROF. MANOEL PAIVA - ESPAÇO CULTURAL ÁGORA

              PROF. SOLANGE BARBOSA - CENTRO CULTURAL AFRO BRASILEIRO ZUMBI DOS PALMARES

             BOB NASCIMENTO - COLETIVO TERÇA SINTONIA

PALESTRA: ENSINAMENTOS DA CULTURA ANGOLANA - DIA 20\11 DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA


DIA 20 DE NOVEMBRO DE 2015  

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA  

ESCOLA ESTADUAL: DESEMBARGADOR AFONSO DE CARVALHO 

CIDADE: SANTO ANTÔNIO DO PINHAL


PALESTRA

ENSINAMENTOS DA CULTURA ANGOLANA























sábado, 12 de dezembro de 2015

Epicuro e a morte como perda da subjetividade

Epicuro e a morte como perda da subjetividade por  Markus Figueira da Silva

As reflexões epicúreas sobre  'modo de ser' do sophos indicam um conjunto de preceitos a serem seguidos por todos que buscam uma existência serena, livre dos tormentos que comumente assolam as almas dos homens, isto é, daqueles que acatam, sem mais, opiniões vazias de sentido propagadas nas crenças populares e se deixam afetar profundamente por elas. Epicuro se insurge sobretudo contra sentido de certas crenças que projetam para além da vida sentido de viver, ou contra aqueles que constroem "causas imaginá rias'", que sustentam a hipótese de realização de uma 'outra vida' após a morte. Estas crenças já existiam muito antes do aparecimento de Epicuro e continua a vigorar até hoje como fundamento de muitas religiões. Entretanto, paralelamente aos cultos da "morte" e da"reencarnação", outros pensadores tentaram esvaziar sentido de toda e qualquer proposta que tivesse por meta erguer a partir da morte um "projeto de outra vida". Talvez tenha sido Epicuro primeiro a formular em proposições, que a morte não deva ser um problema para o homem, enquanto este vive e tem uma clara compreensão do limite desta vida. Dito de outro modo, a morte não é suficientemente consistente para ser pensada exaustivamente pela Filosofia. O motivo de tais reflexões e que o homens em geral tem com a morte uma relação de temor; este temor e fonte de tormentos que adoecem a alma e impedem-na de obter o equilíbrio necessário a uma vida feliz. Portanto, se a filosofia tem por finalidade alcançar a ataraxia, isto é, a  imperturbabilidade da alma, e a preocupação com a morte gera perturba-lo, tal preocupação não deve ser objeto da filosofia. Mas o que pode calar a voz desse "demonic" e livrar de uma vez os homens do temor da morte? Toda a argumentação epicúrea e extremamente coerente com os princípios da sua filosofia e suficiente para demonstrar que não necessidade de se temer a morte, nem tampouco de se conjecturar acerca de uma vida após a morte. A leitura da Carta a Meneceu revela que "não há nada a temer na morte". Algumas máximas epicuristas preservadas também por Diógenes de Laertios no livro X da obra Vida e Doutrina dos Filósofos lIustres, revelam o esforço de Epicuro em esclarecer que não há sentido em temer a morte. E, finalmente, Diógenes imprimiu no muro de sua cidade o famoso tetrapharmakon, composto de quatro ensinamentos dos quais o segundo nos comunica que não há nada a temer quanto a morte. De algum modo deve-se reconhecer o empenho de Epicuro em querer curar a alma daquilo que considerava em sua época uma das principais moléstias - a crença segundo a qual a morte deva ser temida. Para ele, o decisivo era purificar a alma de temores vãos. Procederemos a seguir a análise dos panos 124-127 da Carta a Meneceu, nos quais torna-se evidente a partir de uma argumentação consistente que o temor da morte é sem sentido, e que portanto a morte não é um problema. O encaminhamento dado por Epicuro nos sugere que a filosofia deve se ater a vida; ou melhor: a realização da vida. No passe 124, esta escrito: "Acostuma-te a pensar que a morte nada é em relação a nós. Efetivamente, todos os bens e males estão na sensação, e a morte e privação das sensações. Logo, o conhecimento correto de que a morte nada é para nós torna fluível a mortalidade da vida, não por atribuir a esta uma duração ilimitada, mas por eliminar o desejo de imortalidade". (D.L., X, 124 - 125) Para uma melhor compreensão do teor desta proposição decidiu - se por dividi-la em quatro partes, segundo a ordem do texto, que apresenta em primeiro lugar a sentença: "Habitua-te a pensar que morte nada é em rela­ção a nós".
Há entre os comentadores e tradutores dos textos de Epicuro uma longa discussão sobre a melhor tradução e sentido dessa afirmação, entretanto, considera-se aqui mais conveniente a de Marcel Conche, que assinala: "habitua-te a pensar que a morte nada e em relação a nós , por enfatizar o sentido que a morte pode ter em relação a nós, ou ainda, que a morte não nos concerne em nada. Epicuro fundamenta sua afirmação na identificação entre viver e sentir; ou seja: se morrer significa não mais sentir, então nenhuma vida sobrevém a morte. Com relação a isto, as proposições acerca da physis, contidas na Carta de Heródoto dão consistência a esta afirmação por explicitarem que: a alma (psyché), ou aquilo que movimenta o corpo e permite que ele tenha sensações, é corpórea; que com o desfalecimento deixa de existir como (sómatos) e tem os seus átomos desagregados. Epicuro desenvolve nas partes subsequentes a argumentação que sustenta sua proposição. Na primeira delas ele sintetiza o que seria a natureza da sensibilidade: "... Efetivamente, todos os bens e males estao na sensação, e a morte é privação das sensações ..." A sensibilidade existe na interdependência entre corpo e alma. Pode-se dizer que a sensibilidade só é possível num movimento que envolve um páthos e um efeito psíquico, ou seja, as sensações podem ser físicas mas têm repercussões na alma, que através de impressões (prólepsis) produzem uma memória afetiva. O que resulta deste processo de constituição das sensações são dois estados antagônicos: o prazer (hedoné) e a dor (álgos e lýpe). Assim, expõe-se o sentido de identificação do prazer com todo bem e da dor com todo o mal. O sentido da vida só pode ser expresso a partir das afecções geradoras das sensações (aisthesis). A busca do prazer e ao mesmo tempo 'sentido para a vida' e 'medida de ser', ou de physis. A compreensão lúcida da relação entre corpo (Sarkós) e alma (psyché), na medida em que eles produzem sensações que dão sentido ou noção (para/de) vida, evidencia um todo que é o homem - e a natureza de sua realização, Toda e qualquer relação entre homem e mundo só pode ser sensitiva, porque se parte do pressuposto segundo o qual o homem  só é na medida em que sente. A ausência de qualquer sensação significa morte. Não há nada a dizer sobre ela. Nada se expressa com sentido fora da sensação, Não se pode projetar a vida para além dos limites da sensibilidade. Tudo isso se complementa perfeitamente segundo um raciocínio (logismós) que identifica a realização da vida ao exercício físico e anímico da sensibilidade. A morte é, portanto, privação das sensações: o que vale dizer que a morte não é nem bem nem mal, porque bem e mal só podem ser pensados com relação aquele que sente e traduz para si o efeito que tal sensação produz: prazer, ou dor, isto é, bem ou mal. "...Logo, o conhecimento correto de que a morte nada é em relação a nós toma f1uível a mortalidade da vida ..." 
O modo pelo qual se pensa a vida é sob todos os aspectos busca de realização. Todo o sentido da vida é posto na vida e não há sentido em pensar em algo mais "fora da vida". O limite não é temido, ao contrário, é compreendido do mesmo modo como é compreendida a finitude. Pensar a morte como limite da vida e pensá-la como um acontecimento natural e necessário. É preciso que se pense na morte com tranquilidade. Neste sentido, não tornar a morte em algo que deva ser temido e projetar todos os "anseios" para a própria vida, isto é, viver intensamente e de modo sereno. Alimentar a vida de modo a realizá-la livre de qualquer construção imaginária que possa ou venha a negá-la. Aqui, viver de acordo com a natureza, quer significar compreendê-la na medida em que se busque realizá-la, Pensar a vida e vivê-la torna-se uma só coisa, fluível e tranquila, porque suficiente, isto é, independente de fabulações e, sobretudo, das crenças em tais fabulações. Curiosamente, mantêm-se aqui, num sentido diverso, a máxima socrática, reeditada por Montaigne, segundo a qual "filosofar é aprender a morrer". O sentido é outro, bem diferente das projeções de uma outra vida para além desta vida. O sentido exato é o de uma vida bem vivida; isto é, intensamente vivida, segundo o critério de boa realização desta vida e do critério do bem ou do prazer associado aphrónesis. Mais uma vez, a base "physiológica" sobre a qual se ergue toda a argumentação que ora se expõe e a compreensão de psyché como um corpo (composto de átomos qualitativamente diferentes dos átomos que constituem o sarkós). A compreensão de que a alma se desagrega com a morte do indivíduo causa no homem um certo desprendimento, ou seja, leva a uma valorização máxima da vida. A vida é plenitude sob todos os aspectos. A filosofia é um exercício que torna a vida a todo momento carregada de sentido e de vigor. O apagar da chama é tão inevitável quanto o calor que dela emana. E por isso mesmo não precisa ser motivo de inquietação ou temor. A morte é o último acontecimento da vida, só que dela não chegamos a tomar conhecimento. Ela acontece como ausência de sentidos. Ela pode ser pensada como o vazio pode ser pensado, mas em si mesma e para nós, ela nada pode significar. "... Não por atribuir a esta uma duração ilimitada, mas por eliminar o desejo de imortalidade ...". A questão ensejada por Epicuro sobre a finalidade do conhecimento acerca da morte expõe uma medida para o conhecer. Aqui conhecer e compreender o limite do que pode ser dito e do que pode ser imaginado. 0 sábio busca o conhecimento daquilo que se lhe apresenta como passível de ser pensado a partir dos elementos da sensibilidade. As sensações (aísthesis) inauguram o processo de conhecimento que é complementado pelas projeções do pensamento (epibolé tès dianóias) porém, interessa sobretudo compreender os limites de tais projeções, para que não ultrapassem as raias da coerência, cujo referencial é a morte enquanto fato, acontecimento,cujo conteúdo não existe, é insondável. Assim, pensar a morte pode significar estabelecer uma medida de poder para este pensar. O pensamento é narrativo (descrição do fato) ou imaginário: em ambos os casos ele se dá sem qualquer experiência do acontecimento-morte. Logo, o conteúdo do pensamento narrativo limita-se a constatação do fato e da sua necessidade. A morte esta subsumida num processo maior - e este sim experimentado - que é a vida, como perda de sensibilidade, sem qualquer possibilidade de consciência do que já não é. O pensamento imaginante quase sempre ultrapassa os limites da experiência, configurando um 'novo universo', podendo até compreendê-lo como a continuação imaginária que se expõe a partir do ocaso da vida. Este tipo de "conforto" traz por vezes um desconforto e uma intranquilidade, que seriam o temível desejo de imortalidade. Mas o que seria este desejo, aos olhos de Epicuro? Temor. 
A exceção do vazio (kenón) tudo o que existe, além de verdadeiro, é sensível. A morte é perda de sensibilidade, portanto, ela não existe substancialmente enquanto objeto de pensamento. Então porque torná-la (dotá-la) de uma substancia incerta e imaginária, que estranhamente se reveste de cunho religioso, onde o crer está associado ao sentir? E ainda, porque sofrer por antecipação? Epicuro diz que o sofrimento com a perspectiva da morte é uma antecipação, ou seja, ele reside na espera do fato. Lê-se no pane 125: "insensato, portanto, quem diz que teme a morte não porque sua presença pode causar sofrimento, mas porque sua perspectiva faz sofrer. Aquilo que não perturba quando esta presente causa somente um sofrimento infundado quando a esperado".
É na perspectiva da morte que se projeta o imaginário sob a forma de crenças ou como chamava Epicuro 'opiniões vazias' (kenón dóxai) o sofrer por antecipação quer dizer exatamente negar a possibilidade de tornar a vida em algo prazeroso. Isto não é coerente com a natureza das coisas, pois o sábio "não renuncia a vida nem teme a cessação da vida". Ele parece ter a nítida compreensão de que a morte é para muitos apenas um nome, mas um nome temível. Por que? Se para o sábio, ou aquele que medita sobre a bela vida, a naturalidade da morte implica numa compreensão física deste acontecimento? Esta compreensão engendra tranquilidade e não temor ou fantasia. Ao filósofo basta a imagem da morte enquanto momento/ acontecimento final da vida. Esta imagem só é possível mediante uma certa "projeção do pensamento" (epibolé tès dianóias), mas não pode ser caracterizada em momento algum como objeto. 
Serve como ilustração para as proposições epicúreas o comentário de Feuerbach (Sammtliche Werke, X, p. 84): "A morte não é nada (nela mesma), ela não é nem absoluta, nem positiva e não tem realidade senão na imaginação do homem". Na perspectiva do pensamento de Epicuro a morte permanece uma questão aberta e insondável, porque de alguma maneira ele entende que quem busca tecer uma sabedoria de vida, não se deixa seduzir por verdades imaginárias. 

Fonte: http://www.principios.cchla.ufrn.br/arquivos/03P-140-146.pdf