segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

PALESTRA: ENSINAMENTOS DA CULTURA ANGOLANA - DIA 20\11 DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA


DIA 20 DE NOVEMBRO DE 2015  

DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA  

ESCOLA ESTADUAL: DESEMBARGADOR AFONSO DE CARVALHO 

CIDADE: SANTO ANTÔNIO DO PINHAL


PALESTRA

ENSINAMENTOS DA CULTURA ANGOLANA























sábado, 12 de dezembro de 2015

Epicuro e a morte como perda da subjetividade

Epicuro e a morte como perda da subjetividade por  Markus Figueira da Silva

As reflexões epicúreas sobre  'modo de ser' do sophos indicam um conjunto de preceitos a serem seguidos por todos que buscam uma existência serena, livre dos tormentos que comumente assolam as almas dos homens, isto é, daqueles que acatam, sem mais, opiniões vazias de sentido propagadas nas crenças populares e se deixam afetar profundamente por elas. Epicuro se insurge sobretudo contra sentido de certas crenças que projetam para além da vida sentido de viver, ou contra aqueles que constroem "causas imaginá rias'", que sustentam a hipótese de realização de uma 'outra vida' após a morte. Estas crenças já existiam muito antes do aparecimento de Epicuro e continua a vigorar até hoje como fundamento de muitas religiões. Entretanto, paralelamente aos cultos da "morte" e da"reencarnação", outros pensadores tentaram esvaziar sentido de toda e qualquer proposta que tivesse por meta erguer a partir da morte um "projeto de outra vida". Talvez tenha sido Epicuro primeiro a formular em proposições, que a morte não deva ser um problema para o homem, enquanto este vive e tem uma clara compreensão do limite desta vida. Dito de outro modo, a morte não é suficientemente consistente para ser pensada exaustivamente pela Filosofia. O motivo de tais reflexões e que o homens em geral tem com a morte uma relação de temor; este temor e fonte de tormentos que adoecem a alma e impedem-na de obter o equilíbrio necessário a uma vida feliz. Portanto, se a filosofia tem por finalidade alcançar a ataraxia, isto é, a  imperturbabilidade da alma, e a preocupação com a morte gera perturba-lo, tal preocupação não deve ser objeto da filosofia. Mas o que pode calar a voz desse "demonic" e livrar de uma vez os homens do temor da morte? Toda a argumentação epicúrea e extremamente coerente com os princípios da sua filosofia e suficiente para demonstrar que não necessidade de se temer a morte, nem tampouco de se conjecturar acerca de uma vida após a morte. A leitura da Carta a Meneceu revela que "não há nada a temer na morte". Algumas máximas epicuristas preservadas também por Diógenes de Laertios no livro X da obra Vida e Doutrina dos Filósofos lIustres, revelam o esforço de Epicuro em esclarecer que não há sentido em temer a morte. E, finalmente, Diógenes imprimiu no muro de sua cidade o famoso tetrapharmakon, composto de quatro ensinamentos dos quais o segundo nos comunica que não há nada a temer quanto a morte. De algum modo deve-se reconhecer o empenho de Epicuro em querer curar a alma daquilo que considerava em sua época uma das principais moléstias - a crença segundo a qual a morte deva ser temida. Para ele, o decisivo era purificar a alma de temores vãos. Procederemos a seguir a análise dos panos 124-127 da Carta a Meneceu, nos quais torna-se evidente a partir de uma argumentação consistente que o temor da morte é sem sentido, e que portanto a morte não é um problema. O encaminhamento dado por Epicuro nos sugere que a filosofia deve se ater a vida; ou melhor: a realização da vida. No passe 124, esta escrito: "Acostuma-te a pensar que a morte nada é em relação a nós. Efetivamente, todos os bens e males estão na sensação, e a morte e privação das sensações. Logo, o conhecimento correto de que a morte nada é para nós torna fluível a mortalidade da vida, não por atribuir a esta uma duração ilimitada, mas por eliminar o desejo de imortalidade". (D.L., X, 124 - 125) Para uma melhor compreensão do teor desta proposição decidiu - se por dividi-la em quatro partes, segundo a ordem do texto, que apresenta em primeiro lugar a sentença: "Habitua-te a pensar que morte nada é em rela­ção a nós".
Há entre os comentadores e tradutores dos textos de Epicuro uma longa discussão sobre a melhor tradução e sentido dessa afirmação, entretanto, considera-se aqui mais conveniente a de Marcel Conche, que assinala: "habitua-te a pensar que a morte nada e em relação a nós , por enfatizar o sentido que a morte pode ter em relação a nós, ou ainda, que a morte não nos concerne em nada. Epicuro fundamenta sua afirmação na identificação entre viver e sentir; ou seja: se morrer significa não mais sentir, então nenhuma vida sobrevém a morte. Com relação a isto, as proposições acerca da physis, contidas na Carta de Heródoto dão consistência a esta afirmação por explicitarem que: a alma (psyché), ou aquilo que movimenta o corpo e permite que ele tenha sensações, é corpórea; que com o desfalecimento deixa de existir como (sómatos) e tem os seus átomos desagregados. Epicuro desenvolve nas partes subsequentes a argumentação que sustenta sua proposição. Na primeira delas ele sintetiza o que seria a natureza da sensibilidade: "... Efetivamente, todos os bens e males estao na sensação, e a morte é privação das sensações ..." A sensibilidade existe na interdependência entre corpo e alma. Pode-se dizer que a sensibilidade só é possível num movimento que envolve um páthos e um efeito psíquico, ou seja, as sensações podem ser físicas mas têm repercussões na alma, que através de impressões (prólepsis) produzem uma memória afetiva. O que resulta deste processo de constituição das sensações são dois estados antagônicos: o prazer (hedoné) e a dor (álgos e lýpe). Assim, expõe-se o sentido de identificação do prazer com todo bem e da dor com todo o mal. O sentido da vida só pode ser expresso a partir das afecções geradoras das sensações (aisthesis). A busca do prazer e ao mesmo tempo 'sentido para a vida' e 'medida de ser', ou de physis. A compreensão lúcida da relação entre corpo (Sarkós) e alma (psyché), na medida em que eles produzem sensações que dão sentido ou noção (para/de) vida, evidencia um todo que é o homem - e a natureza de sua realização, Toda e qualquer relação entre homem e mundo só pode ser sensitiva, porque se parte do pressuposto segundo o qual o homem  só é na medida em que sente. A ausência de qualquer sensação significa morte. Não há nada a dizer sobre ela. Nada se expressa com sentido fora da sensação, Não se pode projetar a vida para além dos limites da sensibilidade. Tudo isso se complementa perfeitamente segundo um raciocínio (logismós) que identifica a realização da vida ao exercício físico e anímico da sensibilidade. A morte é, portanto, privação das sensações: o que vale dizer que a morte não é nem bem nem mal, porque bem e mal só podem ser pensados com relação aquele que sente e traduz para si o efeito que tal sensação produz: prazer, ou dor, isto é, bem ou mal. "...Logo, o conhecimento correto de que a morte nada é em relação a nós toma f1uível a mortalidade da vida ..." 
O modo pelo qual se pensa a vida é sob todos os aspectos busca de realização. Todo o sentido da vida é posto na vida e não há sentido em pensar em algo mais "fora da vida". O limite não é temido, ao contrário, é compreendido do mesmo modo como é compreendida a finitude. Pensar a morte como limite da vida e pensá-la como um acontecimento natural e necessário. É preciso que se pense na morte com tranquilidade. Neste sentido, não tornar a morte em algo que deva ser temido e projetar todos os "anseios" para a própria vida, isto é, viver intensamente e de modo sereno. Alimentar a vida de modo a realizá-la livre de qualquer construção imaginária que possa ou venha a negá-la. Aqui, viver de acordo com a natureza, quer significar compreendê-la na medida em que se busque realizá-la, Pensar a vida e vivê-la torna-se uma só coisa, fluível e tranquila, porque suficiente, isto é, independente de fabulações e, sobretudo, das crenças em tais fabulações. Curiosamente, mantêm-se aqui, num sentido diverso, a máxima socrática, reeditada por Montaigne, segundo a qual "filosofar é aprender a morrer". O sentido é outro, bem diferente das projeções de uma outra vida para além desta vida. O sentido exato é o de uma vida bem vivida; isto é, intensamente vivida, segundo o critério de boa realização desta vida e do critério do bem ou do prazer associado aphrónesis. Mais uma vez, a base "physiológica" sobre a qual se ergue toda a argumentação que ora se expõe e a compreensão de psyché como um corpo (composto de átomos qualitativamente diferentes dos átomos que constituem o sarkós). A compreensão de que a alma se desagrega com a morte do indivíduo causa no homem um certo desprendimento, ou seja, leva a uma valorização máxima da vida. A vida é plenitude sob todos os aspectos. A filosofia é um exercício que torna a vida a todo momento carregada de sentido e de vigor. O apagar da chama é tão inevitável quanto o calor que dela emana. E por isso mesmo não precisa ser motivo de inquietação ou temor. A morte é o último acontecimento da vida, só que dela não chegamos a tomar conhecimento. Ela acontece como ausência de sentidos. Ela pode ser pensada como o vazio pode ser pensado, mas em si mesma e para nós, ela nada pode significar. "... Não por atribuir a esta uma duração ilimitada, mas por eliminar o desejo de imortalidade ...". A questão ensejada por Epicuro sobre a finalidade do conhecimento acerca da morte expõe uma medida para o conhecer. Aqui conhecer e compreender o limite do que pode ser dito e do que pode ser imaginado. 0 sábio busca o conhecimento daquilo que se lhe apresenta como passível de ser pensado a partir dos elementos da sensibilidade. As sensações (aísthesis) inauguram o processo de conhecimento que é complementado pelas projeções do pensamento (epibolé tès dianóias) porém, interessa sobretudo compreender os limites de tais projeções, para que não ultrapassem as raias da coerência, cujo referencial é a morte enquanto fato, acontecimento,cujo conteúdo não existe, é insondável. Assim, pensar a morte pode significar estabelecer uma medida de poder para este pensar. O pensamento é narrativo (descrição do fato) ou imaginário: em ambos os casos ele se dá sem qualquer experiência do acontecimento-morte. Logo, o conteúdo do pensamento narrativo limita-se a constatação do fato e da sua necessidade. A morte esta subsumida num processo maior - e este sim experimentado - que é a vida, como perda de sensibilidade, sem qualquer possibilidade de consciência do que já não é. O pensamento imaginante quase sempre ultrapassa os limites da experiência, configurando um 'novo universo', podendo até compreendê-lo como a continuação imaginária que se expõe a partir do ocaso da vida. Este tipo de "conforto" traz por vezes um desconforto e uma intranquilidade, que seriam o temível desejo de imortalidade. Mas o que seria este desejo, aos olhos de Epicuro? Temor. 
A exceção do vazio (kenón) tudo o que existe, além de verdadeiro, é sensível. A morte é perda de sensibilidade, portanto, ela não existe substancialmente enquanto objeto de pensamento. Então porque torná-la (dotá-la) de uma substancia incerta e imaginária, que estranhamente se reveste de cunho religioso, onde o crer está associado ao sentir? E ainda, porque sofrer por antecipação? Epicuro diz que o sofrimento com a perspectiva da morte é uma antecipação, ou seja, ele reside na espera do fato. Lê-se no pane 125: "insensato, portanto, quem diz que teme a morte não porque sua presença pode causar sofrimento, mas porque sua perspectiva faz sofrer. Aquilo que não perturba quando esta presente causa somente um sofrimento infundado quando a esperado".
É na perspectiva da morte que se projeta o imaginário sob a forma de crenças ou como chamava Epicuro 'opiniões vazias' (kenón dóxai) o sofrer por antecipação quer dizer exatamente negar a possibilidade de tornar a vida em algo prazeroso. Isto não é coerente com a natureza das coisas, pois o sábio "não renuncia a vida nem teme a cessação da vida". Ele parece ter a nítida compreensão de que a morte é para muitos apenas um nome, mas um nome temível. Por que? Se para o sábio, ou aquele que medita sobre a bela vida, a naturalidade da morte implica numa compreensão física deste acontecimento? Esta compreensão engendra tranquilidade e não temor ou fantasia. Ao filósofo basta a imagem da morte enquanto momento/ acontecimento final da vida. Esta imagem só é possível mediante uma certa "projeção do pensamento" (epibolé tès dianóias), mas não pode ser caracterizada em momento algum como objeto. 
Serve como ilustração para as proposições epicúreas o comentário de Feuerbach (Sammtliche Werke, X, p. 84): "A morte não é nada (nela mesma), ela não é nem absoluta, nem positiva e não tem realidade senão na imaginação do homem". Na perspectiva do pensamento de Epicuro a morte permanece uma questão aberta e insondável, porque de alguma maneira ele entende que quem busca tecer uma sabedoria de vida, não se deixa seduzir por verdades imaginárias. 

Fonte: http://www.principios.cchla.ufrn.br/arquivos/03P-140-146.pdf 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A MAIS VALIA EM MARX

Outro conceito importantíssimo para se compreender a organização dos modos de produção capitalista e suas formas de apropriação do trabalho é aquilo que Marx denominou como Mais-valia. Esse termo, muito famoso, é utilizado para referir-se à diferença existente entre o valor da mercadoria produzida, a soma do valor de seus meios de produção e o valor do trabalho, que apresenta-se como a base de lucro no sistema capitalista.
Este, no entanto não é um conceito tão simples quanto possa parecer à primeira vista, isso porque o próprio Marx, aos poucos, foi percebendo que muitos destes valores não eram grandezas concretas e absolutas, mas sim passiveis de muita variabilidade indo de uma sociedade para a outra.
Por exemplo, foi possível constatar que os valores do trabalho não eram reduzidos ao valor de sobrevivência, mas que em cada sociedade ele agregava valores de costumes e culturais, dessa forma, na França, por exemplo, esse valor levava em conta que era algo impraticável esperar que os operários contentassem-se em viver sem seu vinho.

Sabe-se no entanto que, invariavelmente, os valores atribuídos ao trabalho e mesmo a todo processo de produção eram absurdamente inferiores ao valor cobrado pelo produto final, gerando dessa forma lucros exorbitantes para o capitalista, o dono dos meios de produção. E assim é até hoje, fazendo com que não seja difícil perceber, mais uma vez, a alienação do trabalho. Os honorários obtidos por um trabalhador de linha de montagem de automóveis pode sim suprir suas necessidades de sobrevivência, no entanto, dificilmente dará a esse operário acesso pleno ao produto final de seu trabalho.

O TRABALHO EM WEBER

A visão protestante, para além de uma valorização religiosa do trabalho, contribui para criar um “espírito” motivacional para o empreendedorismo. A contribuição de Weber é mostrar que o capitalismo ensejado pela Revolução Industrial tinha, em sua base, uma concepção de trabalho vinculada ao ascetismo secular do protestantismo. Foi essa concepção de trabalho, que liberou moral e eticamente os homens – os capitalistas – à aquisição de bens, à obtenção do lucro, à cobrança de juros e à acumulação de capital. Esse ethos – conjunto de valores culturais – exortava que a acumulação do capital deveria ser reinvestida em novos empreendimentos que gerassem mais empregos. Esse círculo virtuoso – trabalhar, acumular e reinvestir – permitia o estabelecimento da harmonia social. Será esse ethos que fomentará a atividade capitalista.
Observa-se portanto que, da completa desvalorização, o trabalho assume, ao longo da sociedade religiosa, uma mudança de sentido até se tornar referência para uma vida virtuosa. Num primeiro momento, na Idade Média, o trabalho é interpretado como castigo – subjaz a essa representação do trabalho uma subjetividade da insignificância da condição humana. O trabalho não é fonte de afirmação pessoal, coletiva ou mesmo espiritual, não compraz e não é valorizado. É visto como necessidade, uma penitência a ser realizada que se coloca em contigüidade à necessidade de sobrevivência. Efêmera, a vida é feita de trabalho penoso e árduo, infeliz e desafortunado. Mesmo aquele que não trabalha interpreta o trabalho dessa forma e considera-se venturoso porque possibilita a outrem a purgação do pecado original de toda a humanidade. A subjetividade manifesta é análoga aos que vivem do trabalho e aos que não vivem. 
Uma nova configuração dos aspectos subjetivos do trabalho ainda pode ser considerada na sociedade religiosa. Trata-se daquela advinda do significado do trabalho a partir dos preceitos impregnados na Reforma. Daquele momento em diante, definitivamente o trabalho afirma-se como um valor desejável, necessário e sinal de reconhecimento. A afirmação da pessoa humana passa pelo trabalho. A vida virtuosa completa-se no trabalho e é condenável a vida ociosa. Todos devem trabalhar, inclusive aqueles que dele necessariamente não precisem. O trabalho passa a ser uma exigência social, e como tal, assume uma configuração de distinção junto aos outros. O trabalho, contrariamente ao que se afirmava antes, pode sim ser fonte de riqueza e quanto mais se amealha mais reconhecimento traz e mais agrada a Deus.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A LIBERTAÇÃO DO POBRE EM OSCAR ROMERO - Numa perspectiva romeriana à luz dos filósofos Enrique Dussel e Ernst Bloch

A LIBERTAÇÃO DO POBRE EM OSCAR ROMERO

Numa perspectiva romeriana à luz dos filósofos

 Enrique Dussel e Ernst Bloch

Manoel de Pádua Paiva Morais


1.     O POBRE EM OSCAR ROMERO E A LIBERTAÇÃO DUSSELIANA

Beato Dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, El Salvador, América Central, assassinado junto ao altar e próximo a seu povo, na capela do Hospital da Divina Providência, no dia 24/03/1980, é um representante do cristianismo da América Latina. O pensamento do Beato Óscar Romero e sua prática libertadora esta historicamente comprometida com a causa dos pobres e é a melhor leitura para compreendermos o espírito de Romero. Afastando-se dessa óptica, o leitor se afasta do próprio arcebispo salvadorenho. Nosso estudo, então, dirige-se para o final da década de 1970 e, ao mesmo tempo, para nosso contexto de hoje. São épocas bem diversas em muitos aspectos, mas que registram importantes semelhanças, particularmente no tocante à realidade dos pobres.

A comunhão entre o pastor e seu sofrido rebanho, a que Romero acompanha e visita com frequência, torna-se, contudo, sempre mais profunda. E, ao invés de se intimidar, é aí que Romero se agiganta. O homem tímido, espontaneamente conservador, mostra-se imbatível na defesa de seu povo empobrecido e vitimado por tamanha violência (SILVA, 2012, p. 57)

A proximidade permite a Romero conhecer de perto a vida, as alegrias e o sofrimento de seu povo, muitos rostos e encontros face a face. Aproximar-se de quem está à margem, ir a seu encontro para servi-los, esse é o apelo do cristianismo do Beato. Ele vive com vigor, e por isso se declara conhecedor das feridas do povo de San Salvador. A palavra libertação atualmente não está em uso e a mesma pode ser inadequada ou ultrapassada, por estar associado a um determinado tempo histórico. Todavia, a reflexão é além de um problema conceitual. A presença dos pobres e sua morte nunca deixaram de ser atual.
Encontramo-nos numa nova sociedade onde a era da informação, era digital, a pós-modernidade, as transformações tecnológicas e culturais, evidenciam uma nova etapa civilizatória. No entanto, para os pobres, as grandes revoluções técnicas significam o aumento do número de excluídos.

Os rostos dos pobres hoje podem ser novos, mas permanece o princípio: que os pobres tenham vida. É aqui que localizamos o núcleo, o eixo a partir do qual temos acesso a uma interpretação de Romero que condiz com a sua experiência mais profunda. E a interrogação agora, pertinente também para o século XXI, é: como continuar hoje a ser Igreja, a fazer teologia, a organizar uma sociedade, segundo o bem dos pobres? (SILVA, 2012, p.196)

A pertinência das reflexões do filósofo Enrique Dussel para a libertação do pobre consiste em frisar o sofrimento do outro, a causa de uma realidade escondida em que o sujeito nega o outro. Ademais, sua libertação reflete sobre a relação entre o eu e o outro na sociedade, debatendo a questão da exclusão social. A partir disso, analisamos criticamente o discurso latino-americano de Romero e a superação do irracionalismo moderno por meio da razão crítico-libertadora.

A experiência da proximidade entre pessoas como pessoas é que constitui o outro como “próximo” (próximo, vizinho, alguém), como outro; e não como coisa, instrumento, mediação. A práxis, então, na atualização da proximidade, da experiência de ser próximo para o próximo, de construir o outro como pessoa, como fim de minha ação e não como meio: respeito infinito (DUSSEL, 1987, p. 19).

Para o filósofo da libertação a pessoa só se torna pessoa quando esta frente a outra pessoa, num face-a-face, num rosto a rosto, numa relação prática, onde a pessoa é alguém para a outra, não como uma simples coisa. É nesta relação face-a-face de duas ou mais pessoas, que acontece a práxis.

Os extremos da “relação” prática são pessoas. O que é ser pessoa? Alguém é pessoa, estritamente, só e quando está na relação da práxis. Uma pessoa é pessoa quando esta ante outra pessoa ou pessoas. Quando está só perante a natureza cósmica, de certo modo deixa de ser pessoa. (DUSSEL, 1987, p. 19).

O Método da Filosofia da Libertação terá seu ponto de partida no princípio da alteridade, onde o pressuposto desse método estabelece que o discurso filosófico tem um caráter eminentemente ético, para além da dimensão puramente lógica. O discurso é válido ou inválido não pôr sua correção lógica, mas por seu acordo ou desacordo com a justiça. Torna-se evidente que neste artigo, não teríamos espaço para detalhar todo o escopo do pensamento dusseliano, mas sim, desenvolver seus principais postulados a partir das categorias alienação e libertação e suas implicações para a questão do outro. Para Dussel, a alienação consiste no fato de tomar o outro enquanto instrumento, isto é, enquanto um ser que serve de mediação para a realização das vontades do outro, aniquilando a semelhança e a distinção.

É o outro em seu grito, em seu clamor, em sua dor que nos pro-voca (nos chama de lá adiante), nos con-voca (nos chama para ele em sua ajuda), nos interpela (exige explicações de um fato, cita ou chama testemunhas ante a realidade de sua pobreza). Ele imediatamente nos aparece como alguém que tem direitos. (DUSSEL, 1986, p. 52).

A libertação só acontece quando se ouve a voz gritante do pobre. É preciso assumir, tomar sobre si este grito, como denota Dussel, este grito que perturba, inquieta a consciência. É necessária uma responsabilidade, que para o filósofo, esta acção é sem dúvida um novo nascimento, isto é, um sair-se de si, para encontrar o outro.

2.     O CONTEXTO DO BEATO DOM OSCAR ROMERO À LUZ ESPERANÇA CONCRETA EM BLOCH


A utopia faz parte da estrutura histórica do homem e é este um dos pilares do filósofo  alemão Ernst Bloch. Portanto, uma reflexão aberta à realidade latino-americana, permitindo que, como interlocutor, possamos nos situar quanto à prática utópica dos que lutam por mudanças qualitativas da sociedade. Assim, para que possamos entender o vigor até o martírio de Oscar Romero, é preciso, que analisemos detalhadamente o conceito de esperança concreta, deixando de lado concepções idealistas, onde o futuro é aguardado sem que o presente seja levado em consideração. Na fórmula blochiana: a razão não consegue florescer sem a esperança, a esperança não consegue falar sem a razão, indica assim, o papel ativo da esperança esperada. A esperança pelo ainda não-ser implica num engajamento para sua real e possível concretização, mediado, por conseguinte, por uma ativa e racional esperança.

E enquanto a realidade não for completamente determinada, enquanto ela contiver possibilidades inconclusas em nossas germinações e novos espaços de conformação, enquanto for assim, não poderá proceder da realidade meramente fática qualquer objeção absoluta contra a utopia (BLOCH, 2005, p. 195).

A proposta de Oscar Romero, sobretudo em sua estrutura de libertação, rompe com o sistema que oprime e faz dos indivíduos meros anônimos diante da máxima exploração e do lucro. Assim sendo, a prioridade do governo salvadorenho consistia em afirmar as relações mediante a lógica da opressão. Esta se apropria de mecanismos econômicos e sociais para desempenhar a função de dominar as ações das pessoas negando a coletividade, tornando-os seres fragmentados, e dessa forma, utilizando o outro como instrumento a favor do fluxo do capital. Deste modo, temos como conclusão específica deste processo a situação em que os bens gerados pela economia salvadorenha beneficiavam a minoria, massacrando a maioria dos cidadãos.

A verdadeira gênese não se situa no começo, mas no fim, e ela apenas começará a acontecer quando a sociedade e a existência se tornarem radicais, isto é, quando se aprenderem pela raiz. Porém, a raiz da historia é o ser humano trabalhador, produtor, que remodela e ultrapassa as condições dadas. Quando ele tiver apreendido a si mesmo e ao que é seu sem alienação, surgirá no mundo algo que brilha para todos na infância e onde ninguém esteve ainda: a pátria (BLOCH, 2006, p. 462).

Romero consciente de que a exclusão e a opressão se devia a causas estruturais que exigiam solução também estrutural. Denuncia e desmascara as injustas que causam miséria e repressão, e não teme pôr em risco a própria vida e a segurança da Igreja. Frente a tantas e tamanhas iniquidades que atentavam à vida, o Beato Romero experimenta a indignação, mas, sobretudo, faz da compaixão e da misericórdia para com o povo que sofre o princípio diretriz de toda sua atuação. O arcebispo de San Salvador reafirmou sua convicção como homem da esperança, oportunizando o protagonismo dos salvadorenhos como partícipes da transformação social.

Caminhando com seu povo, Romero animava-o na esperança. Passará esta hora de prova e permanecerá refulgente o ideal pelo qual morreram tantos cristãos. Mas já se vislumbra a liberdade de um povo oprimido.  As circunstâncias do país não devem apagar, mas reavivar ainda mais a chama da esperança e da fé. (SILVA, 2002, p. 54)

Em Bloch o princípio esperança, consiste num instrumento objetivo para o homem construir um futuro concreto. Se o futuro ainda-não-é-acontecido, como se esperar pelo que não é, numa esperança correta? Donde se pode inferir que, se o futuro não é algo que passivamente deve ser esperado, há um elemento que intervém na esperança, orientando-a: a razão. A análise dos princípios originários da esperança permite-nos compreender que ela é constitutiva do ser humano, não como uma espécie de essência abstrata, mas sim acontecendo na prática social daqueles que buscam modificar o estado de coisa vigente. Assim, a esperança concreta é fundada na realidade humana, sem, contudo, negar as contradições que pertencem à própria condição histórica do homem.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Romero fora a voz dos sem voz e deu o melhor de si para que os pobres recuperassem eles mesmos a palavra que lhes fora roubada. Beato Oscar se aproximou, acompanhou, e por isso soube ouvir o que os pobres tinham a dizer. Por isso é que consideramos capital a pergunta: como continuar afirmando essa centralidade dos pobres hoje, no novo contexto de nossos dias? Trata-se não só de perguntar pela opção e critério romeriano acerca dos pobres, mas de nos perguntarmos sobre o sempre desta opção e critério, sobre sua atualidade para nós. E, por consequência, questionarmos a nós mesmos: como assumir esse critério no contexto que é o nosso hoje? Como optar em fazer filosofia e teologia à luz de Romero no século XXI?
A partir da reflexão vigente indicamos que a relevância dos referenciais e categorias trabalhadas por Dussel e Bloch possuem muitas complementaridades e convergências para a crítica, uma vez que, suas compreensões de homem-mundo são vitais para a posição epistemológica assumida por esta. Para a perspectiva crítica em que ambos se inserem, a práxis de dominação não reconhece a alteridade. O outro deixa de ser importante para tornar-se coisa. O agir da opressão, ao negar o Outro como outro, incorpora-o num sistema que o aliena e a possibilidade em transformarmos as formas como nos relacionamos com a natureza, o que implica, nos relacionarmos com a humanidade. A afirmação da esperança concreta será tanto quanto mais possível numa nova postura da comunidade humana que, partindo dos referenciais do Beato Oscar Romero na prática do face a face, de uma experiência própria do falar e do escutar, terá como consequência a libertação do pobre numa perspectiva ética social.
Em 24 de maio de 2015 se realizou a beatificação de dom Oscar Arnulfo Romero Galdámez. A missa, celebrada na Praça do Divino Salvador do Mundo, reuniu mais de 250 mil fiéis, e foi presidida pelo representante do papa Francisco, cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BLOCH, E. O princípio esperança. Tradução e notas Nélio Schneider. Rio de Janeiro:  EdUERJ: Contraponto, 2005.

______. O princípio esperança. Vol. 3. Tradução e notas Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2006.

DUSSEL, E. Método para uma Filosofia da Libertação. São Paulo: Loyola, 1986.

 _________. Ética comunitária. Tradução de Jaime Clasen. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

SILVA M., R. Sempre o bem dos pobres: O pastor Oscar Romero, o teólogo Jon Sobrino e o povo salvadorenho (UM TRÍPTICO ECLESIAL E SUA ATUALIDADE PARA O SÉCULO XXI)  . 2012. 303 f. Tese (Doutorado em Teologia) INSTITUTO ECUMÊNICO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEOLOGIA, ESCOLA SUPERIOR DE TEOLOGIA, São Leopoldo. 2012.

REUNIÃO NA UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ - UNITAU

De Luanda/Angola para Taubaté/Brasil

No dia 05 de agosto estive na Pró Reitoria de Extensão da Universidade de Taubaté para tratar de um assunto importante para os novos rumos do Instituto Superior Dom Bosco/ Universidade Católica de Angola.
Abordamos em reunião os termos de um convênio de cooperação entre a UNITAU e o ISDB, assim a Profa. Msa. Ana Beatriz Rodrigues Pelógia, Coordenadora de Cooperação Internacional da Pró-reitoria de Extensão, frisou que é uma conquista para ambas instituições de ensino e uma oportunidade para o fomento de pesquisa e extensão. E nos próximos dias iremos assinar os termos para que esse convênio seja celebrado.