segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Pensar o ser humano depois de Auschwitz, por Leonardo Boff

Pensar o ser humano depois de Auschwitz
Recordamos neste ano os 65 anos do Holocausto de judeus perpretado pelo nazismo de Hitler e de Himmler. É terrificante a inumanidade mostrada nos campos de extermínio, especialmente, em Auschwitz na Polônia. A questão chegou a abalar a fé de judeus e de cristãos que se perguntaram: como pensar Deus depois de Auschwitz? Até hoje, as respostas seja de Hans Jonas do lado judeu, seja de J.B.Metz e de J. Moltmann do lado cristão, são insuficientes. A questão é ainda mais radical: Com pensar o ser humano depois de Auschwitz?
   
É certo  que o inumando pertence ao humano. Mas quanto de inumanidade cabe dentro da humanidade? Houve um projeto concebido pensadamente e sem qualquer escrúpulo de redesenhar a humanidade. No comando devia estar a raça ariana-germânica, algumas seriam colocadas na segunda e na terceira categoria e outras, feitas escravas ou simplesmente exterminadas. Nas palavras de seu formulador, Himmler, em 4 de outubro de 1943: "Essa é uma página de fama de nossa história que se escreveu e que jamais se escreverá". O nacionalsocialismo de Hitler tinha a clara consciência da inversão total dos valores. O que seria crime se transformou para ele em  virtude e glória. Aqui se revelam traços do Apocalipse e do Anti-Cristo.

O livro mais perturbador que li em toda minha vida e que não acabo nunca de digerir se chama: "Comandante em Auschwitz: notas autobiográficas de Rudolf Höss"(1958). Durante os 10 meses em que ficou preso e interrogado pelas autoridades polonesas em Cracóvia entre 1946-1947 e finalmente sentenciado à morte, Höss teve tempo de escrever com extrema exatidão e detalhes como enviou cerca de dois milhões de judeus às câmaras de gás. Ai se montou uma fábrica de produção diária de milhares de cadáveres que assustava aos próprios executores. Era a "banalidade da morte" de que falava Hannah Arendt.

Mas o que mais assusta é seu perfil humano. Não imaginemos que unia o extermínio em massa aos sentimentos de perversidade, sadismo diabólico e pura brutalidade. Ao contrário, era carinhoso com a mulher e filhos, consciencioso, amigo da natureza, em fim, um pequenoburgues normal. No final, antes de morrer, escreveu: "A opinião pública pode pensar que sou uma béstia sedenta de sangue, um sádico perverso e um assassino de milhões. Mas ela nunca vai entender que esse comandante tinha um coração e que ele não era mau".Quanto mais inconsciente, mais perverso é o mal.

Eis o que é perturbador: como pode tanta inumanidade conviver com a  humanidade? Não sei. Suspeito que aqui entra a força da ideologia e a total submissão ao chefe. A pessoa Höss se identificou com o comandante e o comandante com a pessoa. A pessoa era nazista no corpo e na alma e radicalmente fiel ao chefe. Recebeu a ordem do "Fuhrer" de exterminar os judeus, então não se deve sequer pensar: vamos exterminá-los (der Führer befiehl, wir folgen). Confessa que nunca se questionou porque "o chefe sempre tem razão". Uma leve dúvida era sentida como traição a Hitler.

Mas o mal também tem limites e Höss os sentiu em sua própria pele. Sempre resta algo de humanidade. Ele mesmo conta: duas crianças estavam mergulhadas em seu brinquedo. Sua mãe era empurrada para dentro da câmara de gás. As crianças foram forçadas a irem também. "O olhar suplicante da mãe, pedindo misericórdia para aqueles inocentes"- comenta Höss - nunca mais esquecerei". Fez um gesto brusco e os policiais os jogaram na câmara de gás. Mas confessa que muitos dos executores não aguentavam tanta inumanidade e se suicidavam. Ele ficava frio e cruel.

Estamos diante de um fundamentalismo extremo que se expressa por sistemas totalitários e de obediência cega, seja políticos, religiosos ou ideológicos. A consequência é a produção da morte dos outros.

Este risco nos cerca pois demo-nos hoje os meios de nos autodestruir, de desiquilibrar o sistema Terra e de liquidar, em grande parte, a vida. Só potenciando o humano com aquilo que nos faz humanos como o amor e a compaixão podemos limitar a nossa inumanidade.

Leonardo Boff é autor de Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Vozes (2009).


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

“O que é Política?”, por Hannah Arendt

“O que é Política?”, por Hannah Arendt

Fragmento 1
Agosto de 1950
1. A política baseia-se na pluralidade dos homens. Deus criou o homem, os homens são um produto humano mundano, e produto da natureza humana. A filosofia e a teologia sempre se ocupam do homem, e todas as suas afirmações seriam corretas mesmo se houvesse apenas um homem, ou apenas dois homens, ou apenas homens idênticos. Por isso, não encontraram nenhuma resposta filosoficamente válida para a pergunta: o que é política? Mais, ainda: para todo o pensamento científico existe apenas o homem – na biologia ou na psicologia, na filosofia e na teologia, da mesma forma como para a zoologia só existe o leão. Os leões seriam, no caso, uma questão se só interessaria aos leões.
É surpreendente a diferença de categoria entre as filosofias políticas e as obras de todos os grandes pensadores – até mesmo de Platão. A política jamais atinge a mesma profundidade. A falta de profundidade de pensamento não revela outra coisa senão a própria ausência de profundidade, na qual a política está ancorada.
2. A política trata da convivência entre diferentes. Os homens se organizam politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, a partir do caos absoluto das diferenças. Enquanto os homens organizam corpos políticos sobre a família, em cujo quadro familiar se entendem, o parentesco significa, em diversos graus, por um lado aquilo que pode ligar os mais diferentes e por outro aquilo pelo qual formas individuais semelhantes podem separar-se de novo umas das outras e umas contra as outras.
Nessa forma de organização, a diversidade original tanto é extinta de maneira efetiva como também destruída a igualdade essencial de todos os homens. A ruína da política em ambos os lados surge do desenvolvimento de corpos políticos a partir da família. Aqui já está indicado o que se torna simbólico na imagem da Sagrada Família: Deus não criou tanto o homem como o fez com a família.
3. Quando se vê na família mais do que participação, ou seja, a participação ativa na pluralidade, começa-se a bancar Deus, ou seja, a agir como se se pudesse sair, de modo natural, do princípio da diversidade. Ao invés de se gerar um homem, tenta-se criar o homem na imagem de si mesmo.
Porém, sob o ponto de vista prático-político, a família ganha sua importância inquestionável porque o mundo assim está organizado, porque nele não há nenhum abrigo para o indivíduo – vale dizer, para os mais diferentes. As famílias são fundadas como abrigos e castelos sólidos num mundo inóspito e estranho, no qual se precisa ter parentesco. Esse desejo leva à perversão fundamental da coisa política, porque anula a qualidade básica da pluralidade ou a perde através da introdução do conceito de parentesco.
4. O homem, tal como a filosofia e a teologia o conhecem, existe – ou se realiza – na política apenas no tocante aos direitos iguais que os mais diferentes garantem a si próprios. Exatamente na garantia e concessão voluntária de uma reivindicação juridicamente equânime reconhece-se que a pluralidade dos homens, os quais devem a si mesmos sua pluralidade, atribui sua existência à criação do homem.
5. A filosofia tem duas boas razões para não se limitar a apenas encontrar o lugar onde surge a política. A primeira é:
a) Zoon politikon: como se no homem houvesse algo político que pertencesse à sua essência – conceito que não procede; o homem é a-político. A política surge no entre-os-homens; portanto totalmente fora dos homens. Por conseguinte, não existe nenhuma substância política original. A política surge no intra-espaço e se estabelece como relação. Hobbes compreendeu isso.
b) A concepção monoteísta de Deus, em cuja imagem o homem deve ter sido criado. Daí só pode haver o homem, e os homens tornam-se sua repetição mais ou menos bem-sucedida. O homem, criado à imagem da solidão de Deus, serve de base ao state of nature as a war of all against all, de Hobbes. É a rebelião de cada um contra todos os outros, odiados porque existem sem sentido – sem sentido exclusivamente para o homem criado à imagem da solidão de Deus.
A solução ocidental dessa impossibilidade da política dentro do mito ocidental da criação é a transformação ou a substituição da política pela História. Através da ideia de uma história mundial, a pluralidade dos homens é dissolvida em um indivíduo homem, depois também chamada de Humanidade. Daí o monstruoso e desumano da História, que só em seu final se afirma plena e vigorosamente na política.
6. Torna-se difícil compreender que devemos ser livres de fato num campo, ou seja, nem movidos por nós mesmos nem dependentes do material dado. Só existe liberdade no âmbito particular do conceito intra da política. Nós nos salvamos dessa liberdade justo na “necessidade” da História. Um absurdo abominável.
7. Pode ser que a tarefa da política seja construir um mundo tão transparente para a verdade como a criação de Deus. No sentido do mito judaico-cristão, isso significaria: ao homem, criado à imagem de Deus, foi dada capacidade genética para organizar os homens à imagem da criação divina. Provavelmente, um absurdo – mas seria a única demonstração e justificativa possível à ideia da lei da Natureza.
Na diversidade absoluta de todos os homens entre si – maior do que a diversidade relativa de povos, nações ou raças – a criação do homem por Deus está contida na pluralidade. Mas a política nada tem a ver com isso. A política organiza, de antemão, as diversidades absolutas de acordo com uma igualdaderelativa e em contrapartida às diferenças relativas.
(ARENDT, Hannah. O que é Política? Rio de Janeiro: Bertrand, 2004; pág. 21-24)


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

2° MOSTRA DA CASA - UNITAU

Mostra de Arte dos docentes e funcionários administrativos da UNITAU, no Solar da Viscondessa. Aberta ao público até o dia 31\08


Agradeço a Universidade pela oportunidade de participar deste evento e expor 4 poemas de minha autoria compartilhando daquilo que aprendemos com a vida.




sexta-feira, 2 de agosto de 2013

UNITAU NA PRAÇA - Em Caçapava dia 14 de agosto de 2013

O projeto UNITAU na Praça está percorrendo as praças do Vale. Neste mês de agosto, levaremos o evento para a Praça da Bandeira em Caçapava, na 2ª quarta-feira, dia 14 de agosto de 2013.



O propósito da realização do projeto “UNITAU NA PRAÇA”  baseia-se em atividades assistenciais e educativas a serem desenvolvidas por docentes e discentes da Universidade de Taubaté.  A proposta é de que nas primeiras quartas-feiras de cada mês, no horário das 8h30 as 11h30, os discentes acompanhados pelos docentes, devem ir à Praça escolhida para o evento, com atividades previamente já elaboradas por cronograma, exercer ações de lazer, educativas e assistenciais em saúde.   Alguns exemplos de atividades que ocorrem no “UNITAU na Praça”:
  • Infantil – oficina de construção de brinquedos com material reciclável,  festival de pipas, apresentação interativa  de espetáculo circense.
  • Adolescente -  Hip Hop,oficina e apresentação artísticas.
  • Adulto – consciência as terapias alternativas, aulas de yoga, danças circulares, tai chi chuan, massagem e relaxamento
  • Terceira idade - aula de ginástica, oficinas, oshibana  ( arte de criar peças com flores preensadas), arranjos florais, bingo.
  • Especial -   A cada mês uma atração especial para a comunidade.

Pró-reitoria de Extensão | Universidade de Taubaté


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PAIE – Programa de Atenção Integral ao Envelhecimento - UNITAU


Local: Av. Tiradentes, 500, Bom Conselho, Taubaté-SP (Campus do Bom Conselho)

XXXVI SEMANA JURÍDICA - UNITAU

A Universidade de Taubaté (UNITAU) realiza, de 6 a 9 de agosto, a XXXVI Semana Jurídica, cujo tema é “25 anos da Constituição Federal: uma visão interdisciplinar”.


07/08/13 – QUARTA-FEIRA
8h30 – Palestra: Constituição Federal: 25 anos de Consolidação da Cidadania;
Palestrante: Dr. Antonio Carlos Ozório Nunes (Promotor de Justiça da Comarca de Taubaté, Mestre pela PUC/SP e professor);  
19h30 – Palestra: Teoria Comunicacional do Direito Aplicada aos Contratos;
Palestrante: Dr. Jean Soldi Esteves (Secretário de Negócios Jurídicos da Prefeitura Municipal de Taubaté, Mestre e Doutorando pela PUC/SP e professor).
08/08/13 – QUINTA-FEIRA
8h30 – Palestra: O Poder Judiciário e a Constituição Federal de 1988: Cidadania e Justiça; 
Palestrante: Dr. José Claudio Abrahão Rosa (Juiz de Direito da 1ª Vara Cível da Comarca de Taubaté e professor);
19h30 – Palestra: O Estado Democrático e a Legitimidade das Manifestações Populares;
Palestrante: Dr. Daniel Estefano Santos (Delegado e professor).
09/08/13 – SEXTA-FEIRA
8h30 – Palestra: Controle de Constitucionalidade no Âmbito Municipal;
Palestrante: Paul Anderson de Lima (Advogado e Procurador Chefe da Câmara de Taubaté);  
19h30 – Homenagem ao Dr. Sebastião Monteiro Bonato (advogado, ex-Reitor da Universidade de Taubaté e professor)
Palestra: Advocacia: função Essencial da Justiça